
A seca no Nordeste arrasa plantações de milho e feijão; Lourenço Félix
Araújo, 68, de Glória (BA), não acredita mais na chuva para plantar este
ano
As duas principais culturas produtivas do semiárido nordestino, a de
milho e a de feijão, foram extirpadas pela seca deste ano –que já é
considerada a mais rigorosa em décadas. A colheita de milho seria feita
em maio, mas nem chegou a ser plantada, assim como o feijão.
Os pequenos produtores amargam prejuízos e veem as sementes
permanecerem estocadas, sem condições de plantio. Nas cidades, a
consequência da crise no campo é a alta dos preços, com alimentos
custando mais que o dobro em relação ao ano passado.
Um exemplo está no feijão carioca, item essencial da cesta básica. O
quilo do alimento, que até o final do ano passado custava, em média, R$
2,50 nos mercados, hoje está entre R$ 5,50 e R$ 6.
O preço pode aumentar
ainda mais, caso não chova nos próximos meses.
Já o saco de milho (correspondente a 50 espigas), vendida nos
mercados públicos, custava entre R$ 12 e R$ 15 nas capitais do Nordeste e
hoje está entre R$ 25 e R$ 30. No Nordeste, o tradicional milho usado
nas festas juninas está sendo “importado” de outras regiões.
Feijão em falta
Segundo o presidente da Associação de Supermercados de Alagoas,
Raimundo Barreto, com a escassez na região, a solução é buscar o feijão
em outras regiões. “Todo esse feijão que estamos vendendo aqui, na
capital [Maceió], vem do Sul, especialmente do Paraná. E lá, pelo que
sei, houve geadas, que também prejudicaram a produção. Há pouca oferta
no mercado. Quando a gente tem um oferta pequena, o preço sobe. É a lei
natural do comércio”, alega.
Barreto conta que a produção existente nas cidades que não estão
sofrendo com a seca do Nordeste é incapaz de abastecer o mercado
interno. “No interior ainda temos alguns mercados comprando desses
produtores locais, mas que têm pouca oferta e só abastecem pequenas
cidades. O Nordeste sempre exportou feijão para o Sul, mas, com a seca,
nós é que estamos comprando deles. Essa situação é sazonal. Quando a
oferta voltar a crescer, o preço cai de novo.”
O preço do feijão vem subindo não só Nordeste, mas em todo o país.
Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Econômicos), em abril o preço subiu em 14 das 17 capitais pesquisadas
quando comparado com o mês anterior –com destaque para a alta em
Fortaleza (19,52%) e São Paulo (13,56%).
Segundo a pesquisa, em um ano foram registrados aumentos
significativos no preço do feijão em todas as capitais brasileiras. Em
Belém, por exemplo, foi registrada a maior alta, de 121% em 12 meses.
Recife (70,67%), João Pessoa (69,78%) e São Paulo (67,21%) apresentaram,
em seguida, as maiores altas.
“Há um ano, os preços do feijão estavam bem mais baratos e os
produtores reduziram as áreas de plantio. Os preços subiram e, para
tanto, contribuiu também a seca que prejudicou as safras seguintes, em
especial em Irecê, grande produtora de feijão na Bahia.
Como os preços
estão elevados, é possível que o plantio volte a crescer o que pode
permitir a redução subsequente nos preços, principalmente se não houver
novo período de seca”, explicou o Dieese.
UOL
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