Numa linguagem futebolística, tão a gosto do ex-presidente Lula, pode-se concluir ter o jogo terminado 2×1.
O
desmentido de Lula encontra apoio no testemunho de Nelson Jobim, único
presente ao encontro. A propósito, um encontro ocorrido, a pedido de
Lula, no escritório de Jobim, no dia 26 de abril deste ano.
O
ministro Gilmar Mendes, além de a sua versão ter ficado isolada, conta
com a desvantagem de ter esperado um mês para denunciar, pela imprensa,
a “pressão” e a “chantagem” que atribuiu ao presidente Lula. O perfil
mercurial de Mendes, que é bem conhecido, não se adéqua a um mês de
espera.
Segundo Mendes declarou à revista Veja e
confirmou em entrevistas, Lula teria ofertado-lhe “blindagem” na
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura o escândalo
Cachoeira-Demóstenes-Delta. O motivo da proteção na CPMI teria sido o
financiamento feito por Cachoeira de uma viagem a Berlim feita por
Mendes em companhia de Demóstenes.
É
inexplicável não tenha Mendes, diante da supracitada “chantagem” (na
última entrevista Mendes usa o termo “insinuações”), levado o fato, por
ser criminoso, ao conhecimento imediato de seus pares e da
Procuradoria-Geral da República.
Antes
de ingressar no Supremo Tribunal Federal (STF), Mendes era membro do
Ministério Público Federal, cujo chefe institucional é o
procurador-geral da República. Ou seja, Mendes conhece bem o mecanismo a
ser acionado para encaminhamento de uma “notitia criminis”.
No
STF, já presidido por Mendes, são realizadas sessões administrativas
reservadas. Em nenhuma delas Mendes apresentou o fato que, conforme
afirmou, deixou-o indignado.
Como
se percebe sem esforço, o relato de Mendes, sem qualquer prova da
veracidade da afirmação, ofende a honra objetiva e subjetiva do
ex-presidente.
Em
resumo, Mendes atentou à dignidade e ao decoro de Lula. Assim, pode
virar réu em ação por crime contra honra e objeto de ação de iniciativa
privada da vítima (Lula).
Não
se deve olvidar os antecedentes de Gilmar. Ele já mentiu ao denunciar,
de forma escandalosa (“vou chamar o presidente às falas” ou “vivemos
num Estado policial”), uma interceptação telefônica que não aconteceu.
Nesse lamentável e triste episódio, Mendes contou com o apoio do
senador Demóstenes Torres, que confirmou em diálogo publicado pela
revista Veja o teor da conversa mantida com Mendes.
Logo
depois de desmentido por perícia e por conclusão da Polícia Federal em
relatório de encerramento de apuração, Mendes passou a dizer que
denunciou o fato porque era verossímil. Em outras palavras, promoveu, à
época, um grande escândalo, na condição de presidente do STF, com base
na verossimilhança. Por aí já se percebe a leviandade de Mendes.
Lula
não tem o perfil de quem vai aos finalmente quando ofendido. Mas, desta
vez, renunciar em defender sua honra em juízo tem um componente maior.
Não atende ao interesse público manter, na mais alta corte de Justiça do
país, um ministro-julgador de tal calibre. Lógico, em sua defesa
Gilmar, como regra, pode ofertar exceção da verdade. Só que não terá o
testemunho de Jobim a seu favor. Esse ex-ministro, amigo de Lula e de
Mendes, é testemunha única.
Na
nossa legislação não vigora a antiga regra do “testis unus testis
nullus! (testemunho único é testemunho nenhum). Portanto, o testemunho
de Jobim poderá ser aceito.
Mendes, que demorou a denunciar, bem sabe que “dormientibus non sucurrit jus” (o Direito não protege os que dormem).
Além
disso, nenhum ministro do STF afirmou sofrer pressões ou insinuações
de Lula no sentido de adiar o julgamento do Mensalão para depois das
eleições municipais. O STF é um órgão colegiado. Isso quer dizer que não
adiantaria — e Lula não é nenhum estulto — só convencer Mendes.
Portanto, os próprios pares de Gilmar desmentiram sua afirmação de que
lula estaria pressionando por adiamento do Mensalão. Por outro lado, a
ministra Cármen Lúcia, mencionada por Mendes na Veja, não teve
contato com o ex-ministro Sepúlveda Pertence. E Lewandowski, que como se
sabe foi sugerido para o STF pela esposa de Lula, também disse não ter
sofrido pressões.
O
“Mensalão”, que Mendes sustenta haver Lula pedido-lhe para adiar, já
foi objeto de sessões administrativas (com participação de Mendes),
quando se acertou até o tempo para manifestação das partes.
Pela
mídia, o revisor desse processo, Ricardo Lewandowski, já informou que
brevemente o colocará à disposição do presidente Ayres Britto. E Britto,
num compromisso público, frisou que o colocaria em pauta tão logo
recebesse os autos.
Mendes,
trocando em miúdos, até por não ser presidente, como poderia mudar o
quadro, em especial diante do compromisso de Britto, que é quem marca a
pauta, perante os jurisdicionados (cidadãos brasileiros).
Pano rápido. O ministro Gilmar Mendes coloca-se, pela segunda vez, numa camisa de sete varas. Até quando?
Nem Ki Lask - Wálter Fanganiello